Thursday, November 10, 2005

3. Alcains(Castelo Branco)


Fragmento de uma ara em granito recolhida em 1977 no local designado por Cabeço Pelado, a cerca de 3 km para norte da vila de Alcains.
Encontra-se actualmente no Museu Francisco Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco.

Leitura: [...] /REVE / LANGANID(aeco) / V(otum) S(olvit) L(ibens)

Tradução: [...] cumpriu de bom grado o voto feito a Reve Langanidaeco

Comentário: Documenta-se assim mais um testemunho do culto a Reve Langanidaeco, o terceiro encontrado com este epíteto na região da Beira Interior[1].
É baseando-se nestes testemunhos que José Manuel Garcia[2] diz «poder apontar-se para um grupo de Lusitanos com esse nome e que viveria nas regiões de Alcains, Medelim e Proença-a-Velha». A nosso ver, não nos parece uma afirmação muito segura dado tratar-se de uma vasta região que abrangia o território de dois povos da Lusitânia, os Tapori e os Igaeditani[3]
Esta divindade aparece na região da Beira Baixa e desaparece numa ampla região do Centro de Portugal, surgindo de novo no Distrito de Vila Real com uma importante densidade da achados e que se estende até à província de Orense, em Espanha.[4]
Fidel Fita[5] identifica a divindade Reva como uma divindade aquática afirmando que “o deus Reva não só foi adorado próximo do rio Ponsul, em Idanha, como também junto do Minho na Galiza. Provam-no duas inscrições que expus no t. LVIII do BRAH, pp. 512-514, notando a sua relação com o rio Areva, que deu o nome aos Arevacos celtiberos e talvez aos Aravi, vizinhos dos Igeditanos”. Posteriormente outros investigadores partilharam da mesma ideia, ao identificarem a divindade Reva com uma divindade fluvial[6]. Contudo, um dos epítetos conhecido desta divindade, Larauco, liga-o a uma montanha que manteve até hoje esse nome, o monte Larouco[7]. Por outro lado, a oferta de um sacrifico a Reue, identificado num penedo no Cabeço das Fraguas (Sabugal, Guarda)[8], localizado também numa elevação montanhosa, permite-nos apontar para o facto de estarmos perante uma divindade não só relacionada com a água, mas também com a montanha.
Pela paleografia podemos datar este monumento do Sec. II d. C.

Bibliografia: José Manuel Garcia, Epigrafia Lusitano-Romana do Museu Tavares Proença Júnior, Castelo Branco 1984, p.69
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[1] As outras duas inscrições são provenientes de Medelim e Proença-a-Velha, ambos locais localizados no concelho de Idanha-a-Nova.
Rectus / Rufi f(ilius) / Reve/langa/nidaei/gui v(otum) s(oluit)
[Re]velanganitaeco / [es]t hostia deliganda / [L]ucanus Adiei f(ilius)
[2] José Manuel Garcia, Epigrafia Lusitano-Romana do Museu Tavares Proença Júnior, Castelo Branco 1984, p.69
[3] Jorge de Alarcão, Novas perspectivas sobre os Lusitanos (e outros mundos), “Revista de Arqueologia”, Volume 4, nº. 2, Lisboa 2001, pp. 293-349
[4] Juan Carlos Olivares Pedreño, Teonimos indigenas masculinos del ambito Lusitano-Galaico: un intento de sintesis, “Revista de Guimarães”, Volume Especial I, Guimarães 1999, pp. 277-296.
[5] Fidel Fita, Nuevas Inscripciones Romana y Visigoticas, “Boletín de la Real Academía de la Historia”, Vol. LXIV, 1914, pp. 304-313.
[6] Florentino López Cuevillas e Rui de Serpa Pinto, Estudos sobre a Edade do Ferro no Noroeste da Peninsula – A Relixión, “Arquivos do Seminário de Estudos Gelgos”, Vol. VI, p. 320;
José Maria Blázquez Martinez, Aportaciones al Estudio de las Religiones Primitivas de España, “Archivo Español de Arqueologia”, Vol. XXX, 1957, p. 64;
José Maria Blázquez Martinez, Religiones Primitivas de Hipania, Vol. I – Fuentes Literarias y Epigraficas, Roma, 1962, pp. 185-187;
José d’Encarnação, Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1975, pp. 267-268.
[7] A serra do Larouco fica situada na região de Trás-os-Montes, nas famosas Terras do Barroso, na fronteira entre Orense e Portugal.
[8]Marcelino Luís Pereira, A inscrição lusibérica do Cabeço das Fráguas ou Penedo da Moira: Benespêra, A - Guarda. "Munda", Coimbra, 19, Mai. 1990, p. 27-39

2 Comments:

Blogger Idanhense said...

Amigo Manuel

Acho meritório esta tua iniciativa em nos dar a conhecer a epigrafia romana do distrito albicastrense, mas gostaria muito de conhecer os locais do achamento das lápides em maior pormenor, isto é relacionando o documento com a sua envolvência, facto este por vezes esquecido ou tido em menor conta pelo epigrafista. Parabéns pela iniciativa e espero com ansiedade novos posts

4:04 AM  
Blogger Manuel Leitão said...

Amigo Batista
Agradeço as tuas palavras de incentivo. A ideia é apenas divulgar o monumento em si e não o local do achado e sua envolvente.
Quando a novos posts eles irão surgir.

3:15 AM  

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